21 de fevereiro de 2011

O que seria incorreto no humor?

Já que se fala tanto de defesa do humor em relação aos perigos do politicamente correto, busquemos um exemplo : “Os Simpsons” às vezes é apresentada assim :
http://brasilianas.org/blog/luisnassif/o-politicamente-incorreto-dos-simpsons

O que haveria de incorreto nas piadas dos Simpsons? Pouco, até porque as TVs norte- americanas são em geral corretas.

Incorreto é ofender ou desqualificar grupos ou pessoas a partir de estereótipos ou preconceitos, e não é isso o que acontece em geral em “Os Simpsons”. Uma fala apontando que velhos seriam inúteis poderia ser tomada como incorreta, mas também como denúncia (por ironia) a um preconceito arraigado. Outras coisas ficam entre o inspirado e o chavão. A eventual exploração de idiossincracias de grupos não é algo incorreto em si, ao contrário, pode ser fonte de ótimo e inteligente humor (nesse sentido Adam Sandler e a maioria das séries norte-americanas são sim corretos. E divertidos.)

Incorreta certamente é a programação da Fox, haveria algo mais incorreto que mentir?
Isso de "politicamente correto", tido como “patrulha insensata”, foi uma piada que se disseminou no Brasil nos anos 80, quando se comentou nos jornais daqui algumas coisas dos EEUU, da cultura de lá (e às vezes do Reino Unido, mas quanto não se deve ao inglês não ter muitas das flexões de gênero que há em outros idiomas?) Porém nunca houve um grupo ou ong no Brasil, além de casos individuais e esporádicos de militância (e provavelmente com razão), que defendesse restrições de terminologia, censura ou algo assim. (Talvez nem nos EEUU..., aquilo de “verticalmente prejudicado” foi uma invenção humorística, o termo correntemente usado é “little people”.)

No fim o que restou : sempre que alguém se posiciona a favor de respeito ou direitos humanos, especialmente em questões como machismo, intolerância religiosa, racismo ou xenofobia, detratores dessas causas misturam as coisas e defendem suas posições conservadoras amparados em uma pretensa defesa da liberdade de expressão vis-a-vis uma imaginária ditadura do politicamente correto. Porém, seria sumamente incorreto (quando não mesquinho), alguém escudar-se nisso para defender agressões preconceituosas ou ideais reacionários em meios de comunicação.

E a coisa pegou a um ponto (e no caso a existência da internet trouxe uma sobrevida a um processo já em declínio) que pessoas que normalmente se indignariam com algumas coisas se sentem tolhidas em criticar para não parecer “politicamente corretas”. Não é incomum encontrar-se pessoas corretíssimas e bem intencionadas que se preocupam denecessariamente com isso. (Mas eu não me sinto nem um pouco tolhido com essa pretensa antipatrulhagem, diga-se.)

Fala-se muito em “a turma do PC”, os “PC querem nos censurar”, etc. Mas quem? Exemplos concretos? Se alguém achar algum patrulhamento concreto e com conseqüências negativas no Brasil, muito provavelmente apenas será uma exceção que confirma a regra : militantes são sensatos e não arriscariam suas causas por pouca coisa.

Fala-se também do humor que se perderia se a “patrulhagem” fosse bem sucedida. Mas quais os exemplos a citar desse humor? Não se sabe. Ou se trata de piadas tão ruins que as pessoas ficam constrangidas em contá-las (e que TV nenhuma poria no ar) ou são piadas fracas, mas não incorretas.

Desencanemos, pois : se houvesse algo ou alguém realmente “politicamente correto” (o que não há) isso não deveria ser confundido com censura ou falta de humor, mas considerado como expressão de respeito, bom senso, capacidade de conviver com diferenças e os limites que as liberdades (e direitos) de outrem impõem. Aquilo que se chama hoje em dia “bom combate” (expressão esta, isso sim, reinvindicada e assumida por vários grupos, especialmente religiosos.)

E falta de imaginação, humor fácil, piadas velhas, chavões, etc não são “politicamente incorretos” nem alvo de ninguém ou de nenhum grupo. São apenas o que são, humor menos refinado, buscando sobreviver. Mas servindo de escada para outras coisas...

Resumindo : “incorreto”, a meu ver, são as mentiras, os preconceitos e os falsos argumentos. O resto em torno do assunto é construção de uma caricatura para facilitar justamente a perpetuação disso.

8 comentários:

  1. Exatamente! A coisa atingiu um grau absurdo: apresentar seu pensamento, defender opinião, mesmo que equivocada, sem medo, ser transparente, é hoje algo de que todos fogem,algo que é visto como inhumano, menos, incivilizado. Com isso a hipocrisia, mais que a correção de rota de fato, ganhou campo. Eu penso, mas não digo; eu ajo, mas de um jeito que ninguém veja/saiba/perceba, e por aí vai. Melhor olhar o inimigo nos olhos sempre!

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  2. Gunter, mais didaticamente correto do que vc foi nesse texto é impossível. É isso. Existia uma ordem conservadora que não permitia a expressão de uma série de atores sociais. No momento em que estes atores quiseram, não o controle ou a imposição de uma ditadura (feminista, gay, racial ou qualquer outra), mas tão somente o respeito por suas identidades, criou-se uma nova estratégia para mantê-los calados: a ridicularização e o rebaixamento de seus pleitos a um mero "politicamente correto".

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  3. Gunter, e o Capitão Gay do Jô Soares? PI ou PC?

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  4. Concordo, Cláudia. mas menos mal que essa estratégia está me parecendo com trollagem em blogs, desde os artigos 3º (não haverá discriminação) e 5º (todos são iguais...) da constituição de 1988 e da Lei 7716/89 (que criminaliza o preconceito) a sociedade civil deu mostras de ter aprendido muito. Mas não o que podia, pois ainda vemos muitas agressões a negros, mulheres, glbt, migrantes.
    x-x-x-x
    Mas em debates em blogs tá como vc fala, tentativa de ridicularização. Estraga muito o debate, como marimbondos em piquenique. Por isso tô procurando um cartunista PC para ilustrar meus comentários, tipo trabalho em parceria, para tirar uma dos PIs hehehe

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  5. Raquel, acho que é PC. Pelos seguintes elementos:
    - passa uma visão positiva ("capitão" é alguém em busca da ordem, da justiça, embora também haja o duplo sentido, "patrulha")
    - usar idiossincracias não tem problema, gays em geral riem das suas;
    - como em muitas situações parecidas, lembra às pessoas que ainda há uma situação desigual.

    Mas isso é opinião minha, nunca conversei com ninguém sobre isso, até porque não tem importância.

    Em casos assim sempre haverá alguém crica procurando um pêlo. Mas aí serão as exceções que confirmam a regra.

    Eu pergunto (podíamos ter o "jogo do PI/PC") E a música "Vale Tudo" (Tim Maia)?

    Vejamos o absurdo a que chegamos : um crítico de música chegou a escrever em um livro sobre MPB que Chico tinha sido patrulhado por feminista pela música "Mulheres de Atenas" (evidentemente uma música "feminista") Ele não cita nomes, ou seja, "ouviu falar" e pôs no livro isso como denúncia de absurdo do PC! Mas mais absurdo é um escritor não ver o irracional da coisa e acreditar numa piada... E, supondo, que fosse um caso real, seria muito marginal para aparecer em um ensaio sério.

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  6. HUMOR: é eu tentar falar com vc e não conseguir!!! HUMOR : daqueles q tiram a autoestima do outro :::: isso é HUMOR NEGRO...
    HUMOR: é o que estou fazendo agora: não entrar + aqui, é sentir alivio e compreender o lugar que devo entrar...aqui deveria ser um lugar aberto ...Não acredito que vcs gostavam do LULA, esse é um lider com os braços abertos, para os não intelectuais ..... fuiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii , Deus Meu que alivio, nunca + escrevo em lugar que respondem a alguns pouco, e ignoram outros ... o meu Blog tem + de 3.5oo visitantes...fuiiiiiiiiiiiiii sem volta.... FLAMENGO HEXA... estou ALEGRE, ...

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  7. Bem, como sou fã dos Simpsons, acho um equívoco chamar o desenho de politicamente incorreto. Muito pelo contrário, é correto. As piadas que falam de idosos, negros, gays e imigrantes são ácidas críticas ao preconceito. O Hommer é um bossal e uma crítica à mediocridade do americano médio. Há uma grande diferença entre estigmatizar e rir do preconceituoso, que é o que acontece nos Simpsons. Quando o Hommer diz que quando acontece algo errado deve-se jogar a culpa naquele que não fala inglês, a gente ri do preconceituoso, e não de sua vítima. Isso é humor inteligente, crítica profunda, não riso fácil e superficial. E a personagem que faz o contraponto ao Hommer é sua filha Lisa, inteligente, politicamente correta e engajada, e ignorada pela família.

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